Estavam os dois parados por um momento,
talvez um pouco intrigados com o solavanco que acabaram de sofrer, as luzes
apagaram mergulhando-os na escuridão e no mistério da situação, que foi
dissipada pelas luzes de emergência que acendiam segundos depois, acabará a
energia e eles estavam presos no elevador.
Era um dia tempestuoso, era cedo ainda, 7
da manhã pra ser mais exato, não havia como prever quando a luz voltaria
naquela situação, tinham de ir trabalhar, mas era impossível chegar ao mundo lá
fora. Estavam presos numa espécie de universo de metal, cabos, e rolamentos de
aço que só os sustentavam ali no 12º Andar do prédio onde moravam.
Sem se entreolharem, sentaram-se cada um
num canto do elevador num gesto calmo e confortável, de quem espera por um milagre
ou de que tragam logo sua xícara de café que, provavelmente, já chegaria frio
até suas mesas abarrotadas de papéis e frustações que não compartilhavam com
ninguém. O elevador lembrava a eles um pouco dos cubículos em que ficavam mais
tempo do que em suas camas, frios como as bebidas, com tanta gente, tanto frio,
tanto papel, tanto café será que tem alguém vivo aqui ao lado?
Mas dessa vez, como se estivessem
conectados, perceberam algo diferente, havia alguém ali, ele a via, ele o via,
ele ria e ela sorria. Livres do trabalho e presos não mais a falta de energia,
mas àquela sensação tão diferente, do olhar mais demorado, sem o telefone ao
fundo, nada de tela cheias de gráficos e procedimentos, do poder ficar sem sorrisos
forçados e “bom dia em que posso ser útil?”, só o parar e olhar pra si mesmos e
as manchas amareladas em suas roupas.
Sem qualquer cerimonia já se livraram de
seus sapatos e meias. Ele acendia um charuto e desarrumava seu cabelo todo
penteado pra um lado só, tirava a gravata da camisa engomada e fazia alguma
piada sobre a boa índole de seu patrão para com a secretária nova. Ela
libertava seus cabelos de um palito de maneira sútil, mesmo assim agradável de
ver, tragava um gole de qualquer coisa que tinha esquecido ali na bolsa,
passava seu batom vermelho como o desejo enquanto ria desconsertada ao responder
que esse tipo de homem era tão comum quanto promoção de pizzaria nas terças-feiras.
Dado momento ela se aproximou,
engatinhando, quase rastejando, quase cobra, deu um bote naquele charuto,
agarrou-o com a mão onde se encontrava sua aliança, tragou o cigarro como
máquina, prendia a fumaça e o rapaz com o peso do seu corpo. Ele que antes do
bote deu uma bela tragada, agora soltava fumaça pelo nariz de forma febril,
encantado pela cena fitava os olhos da mulher com igual voracidade, a mão que
sustentava alguns catálogos de seguros se encontrava agora nas mãos daquele ser
dominador. Ela agora jogava o cigarro de lado, soltava a fumaça na face do
rapaz enquanto buscava em seus lábios um doce beijo de alcatrão envolto por
toda aquela fumaça envolvente.
Não havia mais compromissos, não havia
moral, também não havia mais roupas, nem charuto, nem fôlego, nem mundo lá fora,
nem se conheciam, só havia desejo, aquele tipo desejo puro e violento que
escapava pelas mãos, pelos dedos e escorre pelo braço e se bebe com a boca e se
aproveita com o corpo inteiro, de ter por um momento a certeza de não saber se
é dois ou um, mas saber que é muito bom e de suspirar saciado e se espreguiçar
com volúpia.
O elevador liga, o mundo lá fora volta a
existir, junto com o trabalho, os compromisso, as roupas, a moral, o café
gelado, os papéis, o chefe, a secretária, o marido, os filhos, o despertador, os
antidepressivos e analgésicos de toda noite.
Ao saírem, não dizem tchau, não
disseram pra ir com Deus, nem que cheguem a tempo no trabalho, ou mande
lembranças a algum conhecido já que nem se conheciam, nem se desejaram bom dia,
pois o que desejavam, em suas mentes, era que em algum lugar da vida deles
aquilo acontece mais 2 ou 3 vezes, quem sabe. Eles não têm grandes ambições,
não ganham muito, uns nem tem nome na multidão, eles só tem esse amor pela
vida, de aproveitar cada momento, antes que a garota da correspondência lhes
traga mais papel e uma bebida que já fora há muito tempo quente...
Mais um história de domingo pra matar seu tédio e atiçar sua imaginação! \o/
Peço para que não me perguntem o motivo de eu ter escrito esse texto, provavelmente eu não saberei responder a verdade, mas espero que tenham gostado! Haha
Peço para que não me perguntem o motivo de eu ter escrito esse texto, provavelmente eu não saberei responder a verdade, mas espero que tenham gostado! Haha
Um Beijo e um Queijo a todos, abraços e até Terça-feira com postagem nova! ;P
Me lembrei muito de "Ensaio sobre a cegueira" lendo o texto. Isso de não precisar de nomes, ou histórias. De perceber, de repente, que vivem e não tem vida, ao mesmo tempo. Gostei muito, mas não me perguntei, ao final, porquê escreveu isto. Eu quase nunca sei porque escrevo algo e imagino que a maioria das pessoas não gosta de explicar os seus porquês! haha
ResponderExcluirfleur-du-matin.blogspot.com