domingo, 24 de fevereiro de 2013

Carpe Diem!


Estavam os dois parados por um momento, talvez um pouco intrigados com o solavanco que acabaram de sofrer, as luzes apagaram mergulhando-os na escuridão e no mistério da situação, que foi dissipada pelas luzes de emergência que acendiam segundos depois, acabará a energia e eles estavam presos no elevador.
Era um dia tempestuoso, era cedo ainda, 7 da manhã pra ser mais exato, não havia como prever quando a luz voltaria naquela situação, tinham de ir trabalhar, mas era impossível chegar ao mundo lá fora. Estavam presos numa espécie de universo de metal, cabos, e rolamentos de aço que só os sustentavam ali no 12º Andar do prédio onde moravam.
Sem se entreolharem, sentaram-se cada um num canto do elevador num gesto calmo e confortável, de quem espera por um milagre ou de que tragam logo sua xícara de café que, provavelmente, já chegaria frio até suas mesas abarrotadas de papéis e frustações que não compartilhavam com ninguém. O elevador lembrava a eles um pouco dos cubículos em que ficavam mais tempo do que em suas camas, frios como as bebidas, com tanta gente, tanto frio, tanto papel, tanto café será que tem alguém vivo aqui ao lado?
Mas dessa vez, como se estivessem conectados, perceberam algo diferente, havia alguém ali, ele a via, ele o via, ele ria e ela sorria. Livres do trabalho e presos não mais a falta de energia, mas àquela sensação tão diferente, do olhar mais demorado, sem o telefone ao fundo, nada de tela cheias de gráficos e procedimentos, do poder ficar sem sorrisos forçados e “bom dia em que posso ser útil?”, só o parar e olhar pra si mesmos e as manchas amareladas em suas roupas.
Sem qualquer cerimonia já se livraram de seus sapatos e meias. Ele acendia um charuto e desarrumava seu cabelo todo penteado pra um lado só, tirava a gravata da camisa engomada e fazia alguma piada sobre a boa índole de seu patrão para com a secretária nova. Ela libertava seus cabelos de um palito de maneira sútil, mesmo assim agradável de ver, tragava um gole de qualquer coisa que tinha esquecido ali na bolsa, passava seu batom vermelho como o desejo enquanto ria desconsertada ao responder que esse tipo de homem era tão comum quanto promoção de pizzaria nas terças-feiras.
Dado momento ela se aproximou, engatinhando, quase rastejando, quase cobra, deu um bote naquele charuto, agarrou-o com a mão onde se encontrava sua aliança, tragou o cigarro como máquina, prendia a fumaça e o rapaz com o peso do seu corpo. Ele que antes do bote deu uma bela tragada, agora soltava fumaça pelo nariz de forma febril, encantado pela cena fitava os olhos da mulher com igual voracidade, a mão que sustentava alguns catálogos de seguros se encontrava agora nas mãos daquele ser dominador. Ela agora jogava o cigarro de lado, soltava a fumaça na face do rapaz enquanto buscava em seus lábios um doce beijo de alcatrão envolto por toda aquela fumaça envolvente.
Não havia mais compromissos, não havia moral, também não havia mais roupas, nem charuto, nem fôlego, nem mundo lá fora, nem se conheciam, só havia desejo, aquele tipo desejo puro e violento que escapava pelas mãos, pelos dedos e escorre pelo braço e se bebe com a boca e se aproveita com o corpo inteiro, de ter por um momento a certeza de não saber se é dois ou um, mas saber que é muito bom e de suspirar saciado e se espreguiçar com volúpia.
O elevador liga, o mundo lá fora volta a existir, junto com o trabalho, os compromisso, as roupas, a moral, o café gelado, os papéis, o chefe, a secretária, o marido, os filhos, o despertador, os antidepressivos e analgésicos de toda noite.
Ao saírem, não dizem tchau, não disseram pra ir com Deus, nem que cheguem a tempo no trabalho, ou mande lembranças a algum conhecido já que nem se conheciam, nem se desejaram bom dia, pois o que desejavam, em suas mentes, era que em algum lugar da vida deles aquilo acontece mais 2 ou 3 vezes, quem sabe. Eles não têm grandes ambições, não ganham muito, uns nem tem nome na multidão, eles só tem esse amor pela vida, de aproveitar cada momento, antes que a garota da correspondência lhes traga mais papel e uma bebida que já fora há muito tempo quente...





Mais um história de domingo pra matar seu tédio e atiçar sua imaginação! \o/
Peço para que não me perguntem o motivo de eu ter escrito esse texto, provavelmente eu não saberei responder a verdade, mas espero que tenham gostado! Haha

Um Beijo e um Queijo a todos, abraços e até Terça-feira com postagem nova! ;P

Um comentário:

  1. Me lembrei muito de "Ensaio sobre a cegueira" lendo o texto. Isso de não precisar de nomes, ou histórias. De perceber, de repente, que vivem e não tem vida, ao mesmo tempo. Gostei muito, mas não me perguntei, ao final, porquê escreveu isto. Eu quase nunca sei porque escrevo algo e imagino que a maioria das pessoas não gosta de explicar os seus porquês! haha

    fleur-du-matin.blogspot.com

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