domingo, 24 de março de 2013

Swings e Agitos na Terra de Cabral!



Eu corria.
A noite era mais silenciosa naquele dia, à neblina preenchia todas as ruelas estreitas da velha Lisboa até os buracos dos ratos que se alojavam nas paredes dos velhos casarões da cidade, permitindo apenas que se visse dois palmos de alguma coisa em todas as direções. Aquela garoa fina caia por toda parte, encharcando os corpos de quem por ali andava e os telhados das igrejas, as lanternas dos postes tentavam fazer qualquer coisa seja piscar, estar, ser, existir menos mostrar alguma luz dentro daquela cidade mergulhada num denso nevoeiro, iluminado, periodicamente, pelo afastado farol que se estendia pela costa. E eu corria.
Meus óculos arredondados de um escuro igual à noite embaçavam a cada transpiração que exalava de meus pulmões que explodiam a cada perna que se estirava tentando alcançar cada vez mais rápido o próximo pedaço de chão com meus tênis de couro preto e branco manchado de vermelho vivo de alguém. Meu blazer marrom sustentava alguns colares de pérolas e rubis que dependurados faziam um balé estranho e sincronizado com a camiseta branca e sangue que dançava sobre o corpo agora molhado pelo suor, pela chuva e pela excitação, junto ao saxofone que jazia sob o meu peito, ao mesmo tempo em que as calças, de um jeans azul encontro entre o céu e o mar, rasgavam aquela madrugada a passos largos pelas ruas de pedras, grandes mosaicos de anos de história, sem olhar para trás. Eu corria.
A lembrança daquela voz sussurrava ao meu ouvido, doce e cálida, me fazia voltar no tempo, como se a visse de novo a encostar os lábios chiclete nos meus ouvidos:
 _ Toque mais uma vez, aquele blues sobre todas as coisas – disse a dama de All Star azul e vestidinho Rockabilly, preto e vermelho de bolinhas brancas, sentada ao meu lado no bar – ele me faz sentir como um bom café Irlandês no meio do universo – completou sorrindo moleca, hora me hipnotizando, hora me fazendo sorrir também, hora fazendo-me esquecer de beber, hora... HORA! Está na hora de tocar de novo!
Subi no palco, junto à banda para tocar, a pedidos da moça, a música “All Blues” que era a marca registrada da nossa banda, que se chamava “Banda Brasileira, mas não é de Bossanova”, a todos os 57 presentes naquele pequeno espaço entre as Ruas Alecrim e Flores, que de bom gosto nos chamaram pra tocar. A execução foi perfeita, percebi toda a melodia percorrendo pelo lugar e tocando as pessoas onde as mãos nunca alcançariam, através do sexy solo do sax, alternando entre o grave e o profundo, que encerrava a canção, mas não a emoção dos ali seduzidos,que de pé aplaudiam ainda de pernas bambas. A dama com os olhos repletos de emoção crivava um olhar que não consegui decifrar no momento, enquanto apertava sua bolsa contra o peito e assoviava alto com o auxílio dos dedos das duas mãos.
Recolhi-me com os outros armados com nossos instrumentos e do belo cachê que recebíamos do velho português, dono do estabelecimento, que sem palavras nos convidava para aparecer por lá mais vezes, e quem sabe tocar alguma moda portuguesa. Todos riram e aceitaram o convite, peguei meu copo de tequila Sunrise e fui para o beco atrás do bar apreciar a boa bebida e uma fina iguaria: um belo charuto cubano que ganhei de um dono de tabacaria em El Salvador há alguns meses atrás.
Neste momento um homem uns dois dedos, não mais nem menos, abaixo de minha estatura veio coberto por um casaco branco que contrastava sua pele morena, provavelmente era de Madeira ou Açores pelo seu sotaque que se diferenciava do corriqueiro lusitano que se ouvia nas praças e padarias, usava uma calça escura e sapatos finos de bico fino, um suntuoso anel com suas iniciais L.R, provavelmente, e um olhar vermelho de embriaguez e fúria que percorreu minha espinha enquanto o copo em minha mão levemente sacudiu o líquido que já quase chegava ao fim.
 _ Fique longe dela, ouviu?! Seu músico sujo! – bradou o rapaz com um soco já repousado em minha face.
Dei um giro e cai no chão sem reação, com uma das mãos me apoiei no chão e a outra mantinha o copo sem derrubar uma única gota da bebida, que não demorei, num só gole, a tragar agora com o tinto gosto de sangue, que derramava pelas minhas roupas.
No mesmo momento a dama apareceu na porta que dava para o beco, a luz que vinha da porta ofuscou a vista dos dois, envolta naquela claridade não sei se era anjo ou demônio, mas ela clamava ao homem de fogo que parasse de atos de asno e me deixasse em paz.
De nada adiantou e antes mesmo de terminar a frase este já se jogava em pose de toureiro a cravar-me, sem sucesso, uma faca que escondia por debaixo de seu casaco. No mesmo momento o copo que agora estava vazio acertava com força a fonte da cabeça do rapaz, que em sequência caia sangrando sob meus tênis.
_ Não queria desperdiçar uma boa bebida – disse calmo enquanto alternava em olhar a expressão chocada da mulher e o charuto que recolhia do chão para futuramente relaxar e me recuperar em algumas baforadas daquele episódio.
Recostava-me agora na parede daquele beco, a mulher me fitava, o charuto repousava em minha boca, ela avançava, o isqueiro talhado de uma cena de um bom filme de Tarantino alçava fogo sobre meu regalo, a mulher não permitiu a conclusão, e com ambas as mãos fechou delicadamente o isqueiro, e pôs em sua bolsa, sem cerimônia, e me estremecia com sua cara de mulher prestes a entrar em choro enquanto um diálogo comigo iniciará:
 _ Peço desculpas por L.R, ele estava bêbado e não queria me deixar em paz, é um sujeito doce, mas muito ciumento, me desculpe também, a culpa foi minha... – e se calou me olhando nos olhos.
 Suspirei, e enquanto minha boca sentia falta do tabaco, minha mente pôs-se a trabalhar e finalmente pode desferir a principal questão:
 _ Não tens culpa de nada a meu ver, um rapaz que não tem freio nas mãos não deveria abastecer-se do combustível dos tolos, o que fizeste para que o mal me fosse feito? – terminei de falar, enquanto o charuto dançava pelos meus lábios em busca de fogo.
Neste momento a densa neblina lambia nossas faces e todo resto, misteriosamente invadindo nosso momento como um ilustre e misterioso intruso que tem algo muito importante pra fazer ali. Em sincronia com o acontecimento ela respondeu:
 _ Disse a ele que desejava ouvir vossas canções todas as noites e de vez em quando ouvir sua voz em minha cama pela manhã, enquanto nós dois nos abraçamos Jazz, e nos amamos Soul, e nos despedimos Blues - disse ela que ao final, com as faces enrubescidas, veio a me agarrar pelo Blazer e me trazendo contra seu corpo.
Estremeci por um momento, enquanto o charuto me escapava pela boca, ela sorria agora malévola enquanto desferia um beijo que me fez sentir o Jazz, do qual falava antes, e cobertos pela o manto de névoa, nós amávamos pouco a pouco enquanto o Soul elevava nossas almas.
Aquilo era o paraíso, pensei.
Mas logo os portões dos céus se fecharam quando pisamos por acidente em umas das mãos de L.R que ainda estava deitado inconsciente pela pancada, problemas a vista...
_ Tens que fugir gajo – Disse apressada – L.R é muito influente por aqui, pode mandar mata-lo! – completou.
Despertei e mexi nos bolsos tentando me lembrar de algo importante, quando finalmente a ficha caia e em maus lençóis me encontrava:
 _ Todo meu dinheiro esta com o resto da banda, não planejava sair de Lisboa tão às pressas, iria voltar ao hotel pra descansar da noite da e quem sabe compor alguma canção.
Neste momento a doce Portuguesinha tirava seus colares e botava em meus bolsos enquanto surpreso tentava ver que tipo de situação me encontrava.
 _ Fique com estas joias, há um homem que fica no terminal de Contentores de Santa Apolónia chamado José Eduardo de Bragança, diga meu nome e ele levará para fora da cidade em troca dos mimos que lhe dei – disse apressada.
 _ Mas eu nem sei o seu nome guria – disse tocando seus lábios.
Nunca me esquecerei do seu nome. Beijou-me novamente, ainda mais profundamente e me abraçou.
 _ Não se engane guria, sou um bom músico, mas não valho nada – disse a ela – Por que se importa tanto com um gajo que acabas de conhecer?
Ela só sorriu de uma maneira angelical com uma mistura de “eu vejo mais do que você pensa” e “você não entende nada sobre mim, não é?” e respondeu docemente:
 _ Eu só te quero bem meu rapaz, estarei vivendo como sempre, não a te esperar, mas se apareceres de novo em minha vida, cuidarei de ti, me cativaste e disso nunca esquecerei.
 Ela abaixou-se em seguida com os olhos em lágrimas a cuidar do corpo estendido ali no chão, e eu juro ter ouvido Bill Withers cantar Ain’t no Sunshine para mim naquele momento enquanto sai em disparada pelas ruelas de Lisboa.
Eu ainda tinha mais um mês inteiro em turnê com a banda, não sabia quando poderia voltar tão cedo pra aquele lugar, não sabia onde ela morava, não sabia se a emoção duraria, e em pensar que minha única preocupação naquela noite era se conseguiria parar de fumar aquelas porcarias.
Ainda estava longe do porto, a garoa insistia, eu cruzava as Igrejas e os restaurantes em grande euforia e pensava:
 _ Que noite maravilhosa, que noite mais linda! – E eu corria.  






P.S: Eu demorei pra caramba pra fazer este texto, mas foi um dos que mais gostei de fazer, Haha!

Espero que se apreciem minha nova obra e compartilhem, comentem e amem a leitura e a escrita tanto quanto eu amo, ou quem sabe até mais! =D

Um Abraço a Todos e até a próxima postagem. (Cansado pra baralho, Haha, X.X')



P.S2: Nessa semana alterarei os conteúdos pra novos projetos:

Terça-feira começarei a linha postagem "Polissemia em Versos" 

e Na quinta com "Poemas que você só vê por aqui!"

P.S3: A música "All Blues" é originalmente de Miles Davis, famoso trompetista, mas a música tem muito som do Saxofone também, Haha! Nada impede de eu puxar a sardinha um pouco pro lado do Sax! =D

Espero que Apreciem, haha! Não percam as próximas postagens aqui em Pedro de Amolar!
\(*0*)/




4 comentários:

  1. Sinto uma leve influência de Zafón nos primeiros parágrafos! haha

    Sério, ficou muito, muito bom. Do tipo que se lê de uma vez, sem parar, e ao mesmo tempo seguindo um ritmo suave e meio inebriante.

    Dica: leiam ouvindo as músicas citadas no texto.

    Caramelo de Limão

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    1. Te dou o parabéns por ler o texto inteiro Fleur! XD
      Eu peço que leia novamente se quiser, pois agora eu revisei os erros de português e ficou show, na medida do possível. Haha

      Tive que estudar um pouco pra escrever o texto, confesso, na questão das músicas e lugares, mas sinto que valeu muito a pena! Haha! O/

      =D

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    2. Por isso que prefiro escrever sobre lugares que já conheço - ou penso conhecer - ou criados por minha pessoa de uma vez! É menos trabalhoso kk

      *Não relerei, porém! kkkkkkkkkk

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    3. sUAHsuSHAuasHUSahussauhsua, mas você pegou o espírito, tá valendo! (y) Haha!

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