Eu
corria.
A
noite era mais silenciosa naquele dia, à neblina preenchia todas as ruelas
estreitas da velha Lisboa até os buracos dos ratos que se alojavam nas paredes
dos velhos casarões da cidade, permitindo apenas que se visse dois palmos de alguma
coisa em todas as direções. Aquela garoa fina caia por toda parte, encharcando
os corpos de quem por ali andava e os telhados das igrejas, as lanternas dos
postes tentavam fazer qualquer coisa seja piscar, estar, ser, existir menos
mostrar alguma luz dentro daquela cidade mergulhada num denso nevoeiro,
iluminado, periodicamente, pelo afastado farol que se estendia pela costa. E eu
corria.
Meus
óculos arredondados de um escuro igual à noite embaçavam a cada transpiração
que exalava de meus pulmões que explodiam a cada perna que se estirava tentando
alcançar cada vez mais rápido o próximo pedaço de chão com meus tênis de couro
preto e branco manchado de vermelho vivo de alguém. Meu blazer marrom
sustentava alguns colares de pérolas e rubis que dependurados faziam um balé
estranho e sincronizado com a camiseta branca e sangue que dançava sobre o
corpo agora molhado pelo suor, pela chuva e pela excitação, junto ao saxofone
que jazia sob o meu peito, ao mesmo tempo em que as calças, de um jeans azul
encontro entre o céu e o mar, rasgavam aquela madrugada a passos largos pelas
ruas de pedras, grandes mosaicos de anos de história, sem olhar para trás. Eu
corria.
A lembrança
daquela voz sussurrava ao meu ouvido, doce e cálida, me fazia voltar no tempo, como
se a visse de novo a encostar os lábios chiclete nos meus ouvidos:
_ Toque mais uma vez, aquele blues sobre todas
as coisas – disse a dama de All Star azul e vestidinho Rockabilly, preto e
vermelho de bolinhas brancas, sentada ao meu lado no bar – ele me faz sentir
como um bom café Irlandês no meio do universo – completou sorrindo moleca, hora
me hipnotizando, hora me fazendo sorrir também, hora fazendo-me esquecer de
beber, hora... HORA! Está na hora de tocar de novo!
Subi
no palco, junto à banda para tocar, a pedidos da moça, a música “All Blues” que
era a marca registrada da nossa banda, que se chamava “Banda Brasileira, mas
não é de Bossanova”, a todos os 57 presentes naquele pequeno espaço entre as
Ruas Alecrim e Flores, que de bom gosto nos chamaram pra tocar. A execução foi
perfeita, percebi toda a melodia percorrendo pelo lugar e tocando as pessoas
onde as mãos nunca alcançariam, através do sexy solo do sax, alternando entre o
grave e o profundo, que encerrava a canção, mas não a emoção dos ali seduzidos,que de pé aplaudiam ainda de pernas bambas. A dama com os olhos repletos de emoção
crivava um olhar que não consegui decifrar no momento, enquanto apertava sua bolsa
contra o peito e assoviava alto com o auxílio dos dedos das duas mãos.
Recolhi-me
com os outros armados com nossos instrumentos e do belo cachê que recebíamos do
velho português, dono do estabelecimento, que sem palavras nos convidava para
aparecer por lá mais vezes, e quem sabe tocar alguma moda portuguesa. Todos
riram e aceitaram o convite, peguei meu copo de tequila Sunrise e fui para o
beco atrás do bar apreciar a boa bebida e uma fina iguaria: um belo charuto
cubano que ganhei de um dono de tabacaria em El Salvador há alguns meses atrás.
Neste
momento um homem uns dois dedos, não mais nem menos, abaixo de minha estatura
veio coberto por um casaco branco que contrastava sua pele morena,
provavelmente era de Madeira ou Açores pelo seu sotaque que se diferenciava do
corriqueiro lusitano que se ouvia nas praças e padarias, usava uma calça escura
e sapatos finos de bico fino, um suntuoso anel com suas iniciais L.R,
provavelmente, e um olhar vermelho de embriaguez e fúria que percorreu minha
espinha enquanto o copo em minha mão levemente sacudiu o líquido que já quase
chegava ao fim.
_ Fique longe dela, ouviu?! Seu músico sujo! –
bradou o rapaz com um soco já repousado em minha face.
Dei um
giro e cai no chão sem reação, com uma das mãos me apoiei no chão e a outra
mantinha o copo sem derrubar uma única gota da bebida, que não demorei, num só gole,
a tragar agora com o tinto gosto de sangue, que derramava pelas minhas roupas.
No
mesmo momento a dama apareceu na porta que dava para o beco, a luz que vinha da
porta ofuscou a vista dos dois, envolta naquela claridade não sei se era anjo
ou demônio, mas ela clamava ao homem de fogo que parasse de atos de asno e me
deixasse em paz.
De
nada adiantou e antes mesmo de terminar a frase este já se jogava em pose de
toureiro a cravar-me, sem sucesso, uma faca que escondia por debaixo de seu
casaco. No mesmo momento o copo que agora estava vazio acertava com força a
fonte da cabeça do rapaz, que em sequência caia sangrando sob meus tênis.
_ Não
queria desperdiçar uma boa bebida – disse calmo enquanto alternava em olhar a
expressão chocada da mulher e o charuto que recolhia do chão para futuramente relaxar
e me recuperar em algumas baforadas daquele episódio.
Recostava-me
agora na parede daquele beco, a mulher me fitava, o charuto repousava em minha
boca, ela avançava, o isqueiro talhado de uma cena de um bom filme de Tarantino
alçava fogo sobre meu regalo, a mulher não permitiu a conclusão, e com ambas as
mãos fechou delicadamente o isqueiro, e pôs em sua bolsa, sem cerimônia, e me estremecia
com sua cara de mulher prestes a entrar em choro enquanto um diálogo comigo
iniciará:
_ Peço desculpas por L.R, ele estava bêbado e
não queria me deixar em paz, é um sujeito doce, mas muito ciumento, me desculpe
também, a culpa foi minha... – e se calou me olhando nos olhos.
Suspirei, e enquanto minha boca sentia falta
do tabaco, minha mente pôs-se a trabalhar e finalmente pode desferir a
principal questão:
_ Não tens culpa de nada a meu ver, um rapaz
que não tem freio nas mãos não deveria abastecer-se do combustível dos tolos, o
que fizeste para que o mal me fosse feito? – terminei de falar, enquanto o
charuto dançava pelos meus lábios em busca de fogo.
Neste
momento a densa neblina lambia nossas faces e todo resto, misteriosamente
invadindo nosso momento como um ilustre e misterioso intruso que tem algo muito
importante pra fazer ali. Em sincronia com o acontecimento ela respondeu:
_ Disse a ele que desejava ouvir vossas canções
todas as noites e de vez em quando ouvir sua voz em minha cama pela manhã,
enquanto nós dois nos abraçamos Jazz, e nos amamos Soul, e nos despedimos Blues
- disse ela que ao final, com as faces enrubescidas, veio a me agarrar pelo
Blazer e me trazendo contra seu corpo.
Estremeci
por um momento, enquanto o charuto me escapava pela boca, ela sorria agora malévola
enquanto desferia um beijo que me fez sentir o Jazz, do qual falava antes, e
cobertos pela o manto de névoa, nós amávamos pouco a pouco enquanto o Soul
elevava nossas almas.
Aquilo era o paraíso, pensei.
Aquilo era o paraíso, pensei.
Mas
logo os portões dos céus se fecharam quando pisamos por acidente em umas das
mãos de L.R que ainda estava deitado inconsciente pela pancada, problemas a
vista...
_ Tens
que fugir gajo – Disse apressada – L.R é muito influente por aqui, pode mandar mata-lo!
– completou.
Despertei
e mexi nos bolsos tentando me lembrar de algo importante, quando finalmente a
ficha caia e em maus lençóis me encontrava:
_ Todo meu dinheiro esta com o resto da banda,
não planejava sair de Lisboa tão às pressas, iria voltar ao hotel pra descansar
da noite da e quem sabe compor alguma canção.
Neste
momento a doce Portuguesinha tirava seus colares e botava em meus bolsos
enquanto surpreso tentava ver que tipo de situação me encontrava.
_ Fique com estas joias, há um homem que fica
no terminal de Contentores de Santa Apolónia chamado José Eduardo de Bragança,
diga meu nome e ele levará para fora da cidade em troca dos mimos que lhe dei –
disse apressada.
_ Mas eu nem sei o seu nome guria – disse tocando
seus lábios.
Nunca
me esquecerei do seu nome. Beijou-me novamente, ainda mais profundamente e me
abraçou.
_ Não se engane guria, sou um bom músico, mas
não valho nada – disse a ela – Por que se importa tanto com um gajo que acabas
de conhecer?
Ela
só sorriu de uma maneira angelical com uma mistura de “eu vejo mais do que você
pensa” e “você não entende nada sobre mim, não é?” e respondeu docemente:
_ Eu só te quero bem meu rapaz, estarei vivendo
como sempre, não a te esperar, mas se apareceres de novo em minha vida,
cuidarei de ti, me cativaste e disso nunca esquecerei.
Ela abaixou-se em seguida com os olhos em
lágrimas a cuidar do corpo estendido ali no chão, e eu juro ter ouvido Bill
Withers cantar Ain’t no Sunshine para mim naquele momento enquanto sai em disparada
pelas ruelas de Lisboa.
Eu
ainda tinha mais um mês inteiro em turnê com a banda, não sabia quando poderia
voltar tão cedo pra aquele lugar, não sabia onde ela morava, não sabia se a emoção duraria, e em pensar que minha única preocupação naquela noite era se conseguiria parar
de fumar aquelas porcarias.
Ainda
estava longe do porto, a garoa insistia, eu cruzava as Igrejas e os
restaurantes em grande euforia e pensava:
_ Que noite maravilhosa, que noite mais linda! –
E eu corria.
P.S: Eu demorei pra caramba pra fazer este texto, mas foi um dos que mais gostei de fazer, Haha!
Espero que se apreciem minha nova obra e compartilhem, comentem e amem a leitura e a escrita tanto quanto eu amo, ou quem sabe até mais! =D
Um Abraço a Todos e até a próxima postagem. (Cansado pra baralho, Haha, X.X')
P.S2: Nessa semana alterarei os conteúdos pra novos projetos:
Terça-feira começarei a linha postagem "Polissemia em Versos"
e Na quinta com "Poemas que você só vê por aqui!"
P.S3: A música "All Blues" é originalmente de Miles Davis, famoso trompetista, mas a música tem muito som do Saxofone também, Haha! Nada impede de eu puxar a sardinha um pouco pro lado do Sax! =D
P.S3: A música "All Blues" é originalmente de Miles Davis, famoso trompetista, mas a música tem muito som do Saxofone também, Haha! Nada impede de eu puxar a sardinha um pouco pro lado do Sax! =D

Sinto uma leve influência de Zafón nos primeiros parágrafos! haha
ResponderExcluirSério, ficou muito, muito bom. Do tipo que se lê de uma vez, sem parar, e ao mesmo tempo seguindo um ritmo suave e meio inebriante.
Dica: leiam ouvindo as músicas citadas no texto.
Caramelo de Limão
Te dou o parabéns por ler o texto inteiro Fleur! XD
ExcluirEu peço que leia novamente se quiser, pois agora eu revisei os erros de português e ficou show, na medida do possível. Haha
Tive que estudar um pouco pra escrever o texto, confesso, na questão das músicas e lugares, mas sinto que valeu muito a pena! Haha! O/
=D
Por isso que prefiro escrever sobre lugares que já conheço - ou penso conhecer - ou criados por minha pessoa de uma vez! É menos trabalhoso kk
Excluir*Não relerei, porém! kkkkkkkkkk
sUAHsuSHAuasHUSahussauhsua, mas você pegou o espírito, tá valendo! (y) Haha!
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