segunda-feira, 22 de abril de 2013

Vodka



Eram 11 horas da noite de um típico domingo de abril: O véu que cobria o céu mostrava-se exuberante com o seu tom escuro como um mar de ouro negro salpicado de belos diamantes que pareciam ser iluminados pelos faróis dos caminhões que cruzavam as madrugadas com seus fretes dias a fora, um vento gélido tocava a pele como uma mão fria de uma brincadeira de namorados e arrepiava desde o mindinho do pé esquerdo até a ponta da pena do chapéu de palha que jazia na minha cabeça.
Era uma caminhada comum, dessas que só se espera ver carros cruzarem em baixa velocidade, rasgando ouvidos com seus ritualísticos sons sobre motos que assoviam e cachorros demonstrando todo seu amor carnal em um canto remoto de uma praça qualquer.
Entretanto, o lugar por onde passava, era de longe, um mero acaso, só queria constatar uma suspeita que me comichava as raízes do cabelo enquanto aquela cena me rebatia da lembrança nos olhos e voltava em minha cabeça, como um, possível, quebra-cabeças sem solução. Ainda estava lá, como temia, aquela velha garrafa de vodka espatifada na calçada da avenida, como se alguém tivesse a jogado de dentro de algum veículo em alta velocidade, fugindo com uma bolsa abarrotada de lindas peças em ouro, prata e pedras preciosas da joalheria da região, que tivesse batido de um ângulo improvável em algo antes de seus cacos alcançarem assassinados no chão de forma irregular, como se alguém tivesse propositalmente os espalhados. O fato não é a forma com que estavam ou foram espalhados, o fato era que estavam ali a 3 semanas consecutivas e , provavelmente, ninguém dera conta disso.
Eu me dei conta disso! A questão agora era: onde estava Dona Lurdes Costa?
Varredora de rua, aos 35, que ao meus bons olhos não lhe davam mais que 34 e meio pelos cuidados com a cutis, trabalhava nesta labuta desde seus 20 anos, começará nova, pois era mãe solteira e David precisava de cuidados, comprados principalmente com os trocados que lhe pingavam na carteira todo final de mês.
Tinha os cabelos ruivos, de uma ascendência celta comprada por R$14,99 num mercado perto de casa, trazia nos olhos o negro do piche das ruas que varria e no sorriso o samba que escutava no radinho que trazia no carrinho, que com Judite, sua fiel vassoura de batalha, sambavam por toda a avenida pela manhã, donde eu a conheci desde que mudei, eu com meus bons dias e ela com seus espalhafatosos cumprimentos de gafieira.
Ninguém notava sua ausência, pra onde foi aquele samba matutino, aquele swing, aquela garra, e o que faz esse lixo na porta da minha casa?!?
Perguntei ao Josué da Oficina que desde as 08:00 da manhã já corria com a graxa, as chaves e o pano sujo de um espesso óleo marrom que passava para limpar o suor de seu trabalho pesado.
 _ Há 2 semanas atrás, Lurdes, mudou-se do pequeno casebre onde morava. Às pressas no meio da noite dois homens trajando ternos finos que pareciam costurados ao corpo de tão perfeito caimento carregavam suas malas e o pequeno David que dormia sossegadamente entre o 9º e o 10º sono - disse me enquanto enxugava o suor da testa e eu o fitava atento a qualquer detalhe importante - Ouvi também alguma coisas sobre os problemas em sair dali, e não havia visto a mulher na ocasião. Na mesma pressa que chegaram saíram em disparada, sem dar satisfação ou boa noite pra ninguém - terminou a história ofegante e com o rosto coberto de suor de emoção, ou de qualquer outra particularidade, que no momento não quis perguntar, me despedi e pus-me porta a fora.

 _Que tipo de confusão essa mulher se meteu? - Indaguei pensativo a caminho da padaria.
Entre massas que voavam acima das cabeças cabeças e que eram processados por enormes rolos de macarrão perguntei a Dona Dolores e o Sr. Itizabal se tinham notícias de nossa porta-bandeira de uniforme laranja-esverdeado.
 _ Há alguns dias estava com os cabelos loiros dentro de um carro, muito bonito por sinal, atrás de óculos tão escuros quanto o vidro fumê - Disse Itizabal, Norueguês de expressões fortes e voz fina como de um menino de pouco mais de 14 anos.

 _ Dizem que saiu sem razão, motivo, circunstância e que não pagou a Dona Rita do mercadinho, a quem devia mais de R$ 200,00 em cousas para forrar o estomago - completou Dolores forrando uma bela massa de sonhos com um tentador doce de leite que deitava-se preguiçosamente sobre a massa de tão cremoso.
Agradeci e coloquei-me em direção ao Mercado Superpato onde tudo é bom e do caro, como dizia a chamado do rádio. 

Quando cheguei lá fui recebido calorosamente pela Portuguesa mais Brasileira que índio Guarani poderia ser, não lembrava nada país algum, aliás, lembrava todos eles, com uma simpatia sem igual e a pele queimada de sol, trazia consigo um prato de quitutes que estava vendendo para que eu provasse. Estavam deliciosos, na verdade! Quase envolvido por sua leviana lábia de vendedora perguntei o que havia acontecido com a Lurdes de todos os sambas sem demorar.
 _ Lurdes, aquela sortuda, deu jeito na vida, pagou toda sua dívida e comprou me o melhor pedaço de assado no Domingo retrasado. Não sei o que lhe aconteceu, mas seu sorriso era de orelha a orelha, usava unha pintada, roupa bonita e um cachorro sofisticado lhe seguia por todas as redondezas. Vá na prefeitura rapaz, lá podem lhe informar, o destino dessa mulher que o samba nunca vai abandonar - terminou a fala me empurrando minha sacola de compras abarrotado de doces sortidos.
 _ R$ 50,00 morreram com a minha curiosidade, que raposa velha!
Fui na Prefeitura para saber o que aconteceu com tal figura de minha memória, quem me recebeu foi Arthur Tadeu, pobre infeliz que esse nome ganhou quando nasceu, me disse:
 _Há um boato que ganhará uma fortuna do pai da criança e viajara para a Flórida, Mercedes, peruca Loira,  bagagem cor de rosa e cachorrinho de Dondoca, que sorte dessa figura lustrosa, com esse dinheiro poderia fazer tantas cosias até mudar algumas coisas que a pessoa incomoda... como um nome... - terminou, tristonho, o rapaz de contar a anedota.
 _Mas que desafora dessa mulher, nem um tchau ou um bilhete me deixou pra contar o que tinha acontecido agora - terminei enquanto pro trabalho me dirigia.
Chateado, porém aliviado voltei para casa, pois agora toda a história tinha muita lógica, menos o sangue nos cacos de vidro, mas cada mistério em sua hora... 

"E que a cada dia você possa ser mais feliz e eu também... =D"

Prometido, cumprido e não se fala mais nisso, um beijo e um queijo é o que tenho por agora e se quiser mais passe por aqui outra hora! Haha =D

Até a próxima em Como é o nome do Blog mesmo? Haha xD

4 comentários:

  1. Me deixou curiosa até o fim e terminei com um "só?", é muito bom ler seus contos ...

    Adolecentro

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    1. Muito Obrigado! Haha *-*

      Mas pretendo melhora-los, acho que estou pecando um pouco na fluidez deles... xD'

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