Já estava acabando o final
de semana, 11 da noite pra ser mais exato, era um daqueles dias chuvosos e
frios onde livros e bons copos de bebidas quentes são bons companheiros num
lugar confortável pra se recostar e viajar pra dentro de si...
Na verdade nessa hora eu poderia estar recostado em uma
confortável poltrona servindo-me de um belo copo de gim com gelo enquanto
acendia um velho cachimbo feito em madeira de cedro todo entalhado enquanto o
céu me contava sua história nas gotas que caiam na janela como as lágrimas de
alguém que sofreu muito um dia ou chorou de tanta alegria...poético não?... mas
estava lavando a louça do jantar. A água que saia da torneira era fria e não se
importava nem um pouco em levar o mirrado calor que continha em minhas mãos por
entre os dedos descendo pelo ralo, levava com ela também espuma e as coisas que
desejamos limpar os talheres, pratos e copos mesmo que aparentemente não há
nada demais ali...
Olhando aquela água correndo como uma cachoeira sob minhas
mãos agora tão geladas quanto o gelo do copo de gim me recordei do calor que se
dissipou ao levantar da cama no sábado pela manhã, daquela despedida na
rodoviária, e do calor que senti no sorriso, no copo de café e naquele
delicioso prato de comida que aqueles desconhecidos me ofereciam mesmo eu sendo
só um acompanhante desastrado e sonolento de alguém que realmente tem uma
relação muito forte com alguém da família que não sejam seus pais ou irmãos,
que se importa ao ponto de vê-la em sonhos e dirigir em sua direção só para ver
como está, algo que não consigo enxergar nesse meu egoísmo imenso... com uma
garrafa de gim vazia e ao lado a fria e velha conhecida que não bebia, não
falava, não comia e não fazia companhia.
A duras penas termino esse ingrato trabalho a me aporrinhar,
os dedos da mão agora desprovidos de sensibilidade já não sentiam mais o toque
da pele só o frio mortificante de uma alma, enquanto viro a direita nos meus
sonhos acordados e busco no celular uma música pra animar o ambiente com o bom
e velho jazz, um pouco do soul e a batida empolgada do funk norte-americano.
Vendo aquela espuma que derivou de toda a integridade daquela sujeira sob a pia
pude avaliar como foi meu final de semana e como eu mal esperava para o dia
acabar, alguns já dormem outros só esquecem de ligar...
_Só me resta ler e dormir um pouco - Concluí após colocar o
pano de prato no gancho para que secasse até a manhã do outro dia.
De repente de sobressalto me virei aturdido sob o marcante e
abafado toque que meu celular anunciava em meio ao sofá sufocado por almofadas
e conforto, uma mensagem de alguém que eu pensava ter esquecido veio falar
comigo, disse que estava me esperando na frente de casa para irmos.
Concordei sem responder a mensagem e fui rapidamente me
trocar. Coloquei minha calça branca, com uma camiseta branca de gola em v,
minha jaqueta de couro nova e meu melhor sapato, deixei toda a minha roupa ali
mesmo encima da cama com a promessa de que a arrumaria quando retornasse...
peguei meu celular e minhas chaves, fui porta afora onde a neblina engolia tudo
a 2 metros de meu nariz o que me permitia ver apenas uma luz fraca vindo dos
faroletes do automóvel que ali me aguardava com sua motorista preocupada.
Entrei e a abracei, ela me contou o ocorrido e porque se
atrasará tanto e por fim partimos em direção ao nosso destino, que na verdade,
ficava a vergonhosas 2 quadras da minha casa, mas entendo que ela tenha vindo
de carro, pois mora longe e precisava trazer muitas coisas consigo, eu
aproveitei a carona porque sem ela não conseguiria entrar e por que a muito
tempo não a via...
No caminho indagava sobre a sorte de não ser a primeira vez
que ela fazia isso o que tornava a situação bem mais confortável, o que ela
logo desmentiu dizendo que nestes casos sempre é uma primeira vez. Temi por
alguns momentos, mas a coragem me voltou quase que instantaneamente e nos
colocamos a caminho do quarto.
Ao chegarmos na entrada falamos com os funcionários
permitiram minha entrada junto a ela que com sua grande bolsa já punha-se
disposta a andar pelos corredores procurando a porta correta naquele grande
labirinto branco de esperanças e dores vividos e retratadas naquelas paredes
branco perolado.
Ao entrarmos no cômodo avistei logo de cara uma linda criança
que, ao contrário dos demais, estava acordada meio enrolada nos lençóis, meio
querendo brincar de qualquer coisa, meio sem saber onde estava, 3/2 pra ser
mais exato e seu sorriso era 50/5 e me encantava a cada olhar perdido que dava ao
cruzar com os olhos meus.
_Eles não estão aqui, devem estar vendo televisão... -
respondeu ela meio sorrindo bobona do jeito que somos meio com vontade de ficar
perto do seu filho amado.
Seguimos então para a sala ao lado onde dispunham alguns sofás, uma televisão suspensa e uma garrafa de café e chá para suportar a noite fria dos acompanhantes.
Seguimos então para a sala ao lado onde dispunham alguns sofás, uma televisão suspensa e uma garrafa de café e chá para suportar a noite fria dos acompanhantes.
_Olha a mamãe chegou com o seu "padinho" - disse
ela referindo-se a pessoa com cara de idiota ao ver aquela criança toda linda
numa blusa toda amarelinha e quentinha, seus grandes olhos verdes e que
confortavelmente dormia nos braços do marido de minha comadre que ajeitava sua
pequenas mãozinhas para que eu o desse minha benção.
Fiquei ali olhando e babando por aquela criança pelo próximo
minuto que seguia, pois não poderia ficar ali por muito tempo, ele acordará por
uns 5 segundos pra mostrar aquelas duas grandes esmeraldas que tem nos olhos e
depois voltou a dormir um sono leve e tranquilo, digno daqueles que são
os mais felizes na vida.
_Você tem que ir menino - disse preocupada - daqui a pouco
vem e te botam pra fora.
Me acompanhou até a saída depois que abençoei a criança mais
uma vez e me despedi do seu marido e da mulher e seu filho que estavam nas
proximidades.
_Obrigado por ter vindo,
boa noite e fica com Deus! - me disse fechando a porta.
_Você também- disse - e
melhoras pro menino- completei!
Achei um amigo da mesma
idade cujo filho também se encontrava na mesma situação, não troquei muitas
palavras com ele, mas disse meus sinceros desejos de melhora para o seu
pequenino também.
Quando sai do Hospital a
noite se revelará pra mim: Uma Neblina que tomava tudo para si como uma
criança mimada abraçava aquela cidade como se fosse um doce de abóbora com coco delicioso deixando as luzes dos postes dar um tom cobreado em toda a parte, fora a luz amarela
pálida que deles saiam das pequenas lampadas incandescentes.
_Num dia em que eu não
queria saber de nada e que foi tão vazio como posso ter saído de casa, com esse
tempo, a uma hora dessa só para ver se alguém estava bem? Acho que sou meio
estranho mesmo - conclui...
Enquanto andava naquelas
ruas e calçadas de paralelepípedos senti uma leve vontade de avançar sobre
aquela superfície suada da umidade que exalava por toda parte em direção a
rodoviária, era tão tarde...
Vi partir um ônibus
abarrotado de pessoas que eu não fazia ideia de quem eram, ou o que queriam, ou
fizeram para cá, mas eu estava lá, o que eu fazia ali? Depois disso desapareci
na neblina rumo a casa de meus pais...
No caminho pude notar que
aquela serração toda me permitia ver todos os feixes de luz que esbaravam em
alguma paredes ou plantas e cortavam o ar mostrando toda a sua beleza no
caminho que fazem desde o seu início até o infinito do universo que eu sou e de
todas as coisas mais que estavam naquele lugar.
Por fim, chegando na frente de casa ainda estava ao lado dessa velha
conhecida que me abraçava, mas não me confortava, pensava em toda luz que
emitia de mim para os outros, e lembrei como era frio apesar de tudo e entrei
para beber algo para me esquentar...
Escutando - Don't You Forget It - Nick Waterhouse

Tantas sensações, tanto sentimento e tanto frio nessas noites de junho.
ResponderExcluirCaramelo de Limão
É só um pouco de mim pra todos vocês! =,)
ExcluirImpressionante a riqueza de detalhes. Cara, parece Joyce, Tólstoi, Guimarães Rosa. Rica demais a narrativa, o vocabulário. Fenômeno. Escreva um livro. Um não, vários. Sabe quando você lê e mão quer que acabe, fica cada vez mais envolvido na trama. Isso é algo raro. Parabéns!
ResponderExcluirObrigado Danilo *-*,
ExcluirPretendo um dia escrever um livro, mas acho que preciso evoluir muito minha escrita e dominar as palavras como você às orquestra e com mais uma pitada de criatividade estarei pronto! =)
Ou eu posso começar agora mesmo! Haha =P
Digo o mesmo que o Danilo (e digo sempre, e mais!!) cara isso é raro, quantos detalhes! Não se vê mais escritores assim (e eu chego até a te invejar -brancamente- hehehe) , aguardo seus livros *----*
ResponderExcluirAdolecentro
Haha! Obrigado Suzana! =D
ResponderExcluirEspero continuar evoluindo minha escrita e deixar vocês sempre interessados para vir aqui e ver o que tem de novo! =)