domingo, 21 de julho de 2013

Uma Carta para Roxanne



Era uma manhã comum de sexta-feira e as luzes daquele dia ofuscavam qualquer trevas que cobriram aquelas ruas na madrugada que fora extinguida a um tempo atrás.
Uma carta é empurrada por debaixo da porta daquele apartamento, enquanto sua hóspede ao perceber o fato correu para a maçaneta e a girou com vigor empurrando-a com força, de quem quer arrombar uma residência, e vendo por pouco um vulto, uma sombra, dobrando rapidamente o corredor que levava até o lance de escadas de emergência daquele prédio.
 _Volte aqui seu covarde! – replicou aquela mulher que entre pijamas, remelas e cigarros sustentava uma face rigorosa e cansada sob o batente da entrada principal que dava acesso a sala do lugar onde morava.
Voltou-se a direção contrária desistindo da ideia de perseguir o animal desembestado que partiu dali sem qualquer explicação, e entrou dentro do imóvel, trancou a porta, recolheu a carta que não tinha remetente nem indicação de quem haveria lhe escrito aquele documento mesmo desconfiando previamente de quem seria o figurão, tirou a carta do envelope, acendeu uma das bocas do fogão que repousavam panelas com as sobras do macarrão alho e óleo da noite passada, e aproximou a embalagem do fogo até que queimasse, pegou um charuto que havia preparado antes do episódio da carta e acendeu naquela chama, posteriormente jogando o envelope com descaso na pia cheia de copos de conhaque, de caixas de comida chinesa e água até o topo.
Dirigiu-se a poltrona reclinável no lado esquerdo da sala, repousou seus cabelos cor de caramelo e comprimidos até o meio das costas no extremo do estofado, recostou-se ao máximo onde seu 1,89 de altura puderam e seus pés de unhas pintadas de vermelho de dois dias atrás ainda intactos pelo uso frequente de chinelos de dedo deduzia harmonia ao seu estilo desprovido de preocupação com as tendências da última moda com seu pijama de dinossauros amassados pelas 12 horas de sono da última quinta.
Livrou-se das cinzas no cinzeiro que havia na mesa ao lado de onde estava e dali via todo o apartamento lotado de móveis ainda empacotados da última mudança dos quais nunca teve interesse em tirar, não gostava de despedidas, mas mantinha-se num universo onde constantemente vivia a ideia do Adeus e “não ficarei aqui por muito tempo”.
Ligou o abajur ao lado do isqueiro e pegou seus óculos que haviam caído no chão ao lado do móvel, ajeitou-se numa posição mais desconfortável possível que lhe faria ficar trocando de jeito a cada 2 minutos pela inquietação que também lhe causará a carta e finalmente começou a ler do que se tratava aquilo tudo.

Roxanne,

Eu não sei como posso começar a lhe falar sem me sentir ofendido com tudo o que vem acontecendo. Não era pra ser assim, onde vamos parar assim?
Parece que foi ontem que nos conhecemos, éramos estranhos um para o outro, eu um rapaz cheio de energia, disposto e cheio de sonhos de vencer essa cidade que constantemente cuspia na minha cara, não me deixava vive-la e nunca desistia. Você uma adorável e bem sucedida mulher de negócios que tocava seu próprio empreendimento, cercado de homens poderosos e de dinheiro do qual eu jamais sonhei, foi quando alguém me falou de seu profissionalismo e marcamos um encontro ás escuras. Foi ótimo, você sorridente falando sobre o futuro, me incentivando a ser um vencedor, falando um pouco sobre você e sobre como daríamos certo, eu tinha fé.

 _Comovente... – balbuciou enquanto dava uma pausa para bater as cinzas que agora alcançavam a metade do corpo daquele cubano que deslizava entre os dedos finos em movimentos sensuais que levavam-no novamente aos seus lábios que sorviam todo tabaco como um beijo sufocante.

Nosso relacionamento foi ótimo, você me apoiava e me dava tudo o que eu precisava, compartilhei meus sonhos e minhas esperanças e você me estendia a mão e me falava: “Vamos tentar, você tem talento”. Alimentou meu ego e minha vaidade, me viu triunfar e fracassar e continuava ao meu lado, pois sempre fui alguém que cumpria seu papel. Atualmente nossos almoços e cafés só guardam brigas e angustias, e muitas vezes fujo de nossos encontros pra pensar sobre tudo o que fiz e manter na minha mente a boa imagem daquilo tudo que compartilhamos.
Faz dois meses que não a vejo e não quero que isso termine de uma maneira trágica, quero que saiba que mesmo depois de tanto tempo aprecio muito sua companhia e não guardo rancor nenhum e, no mais tardar, terei o dinheiro que lhe devo na próxima terça-feira.
Com meus mais sinceros sentimentos,
Ass:
Henrique Salazar di Dubierre.

Seus olhos relaxaram após a última linha, soltou uma gargalhada dessas de quem não ri a muitos anos e apoiando-se no chão ainda trêmula pelo riso excessivo e entre as lágrimas que rolavam cômicas e a falta de ar e de seriedade, sentenciou:
 _Se esse desgraçado usa-se metade do talento na patifaria e na escrita em algo realmente bom talvez vende-se alguma coisa que lhe permitisse pagar algo do que me deve – terminou jogando a carta por cima do sofá ao lado ainda com uma capa de proteção e um lençol para cobrir.
Caminhou até o balcão da cozinha, rodopiou com uma alegria daqueles que acertam na loteria ou o ponto de algum prato e agarrou o celular discando rapidamente alguns dígitos, esperando pacientemente ser atendida sustentando um riso maquiavélico.
 _Bom dia patroa. – disse uma voz grave e decidida do outro lado da linha
_ Bom dia Leon, estão a postos? – disse com a mesma animação de antes.
_ Quais são as ordens? – riu ainda mais grave.
_ Pegue o pequeno Timmy e vão atrás do “Charlatão da 12 de abril”- silvou – e tragam-no até aqui, pois quero ter uma conversinha com ele, quebre alguns dedos se necessário, até mais! – desligando o telefone.
Apoiada no balcão em uma posição que fazia menção a uma fera prestes a dar o bote em sua presa com a cabeça entre os braços repousando o queixo no azulejo branco disse agora com um olhar penetrante e ácido:
 _ Não vai escapar tão fácil meu caro escritor, vai me pagar nem que tenha que reescrever a bíblia a mão! – e gargalhou profundamente enchendo o ar envolta de veneno daqueles que cheiram sangue e moléstia...


Escutando: "Long Slow Goodbye" - Queens of Stone Age

4 comentários:

  1. Que malvada Roxanne, rs
    beijos e uma ótima semana!

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  2. Que isso Pedro!!! Eu aqui toda comovida com a cartinha, pensando ler meus adoráveis clichês românticos e você me oferece essa surpresa??
    Que malvada :(

    Adolecentro

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