Era
uma manhã comum de sexta-feira e as luzes daquele dia ofuscavam qualquer trevas
que cobriram aquelas ruas na madrugada que fora extinguida a um tempo atrás.
Uma
carta é empurrada por debaixo da porta daquele apartamento, enquanto sua
hóspede ao perceber o fato correu para a maçaneta e a girou com vigor
empurrando-a com força, de quem quer arrombar uma residência, e vendo por pouco
um vulto, uma sombra, dobrando rapidamente o corredor que levava até o lance de
escadas de emergência daquele prédio.
_Volte aqui seu covarde! – replicou aquela
mulher que entre pijamas, remelas e cigarros sustentava uma face rigorosa e
cansada sob o batente da entrada principal que dava acesso a sala do lugar onde
morava.
Voltou-se
a direção contrária desistindo da ideia de perseguir o animal desembestado que
partiu dali sem qualquer explicação, e entrou dentro do imóvel, trancou a
porta, recolheu a carta que não tinha remetente nem indicação de quem haveria
lhe escrito aquele documento mesmo desconfiando previamente de quem seria o
figurão, tirou a carta do envelope, acendeu uma das bocas do fogão que
repousavam panelas com as sobras do macarrão alho e óleo da noite passada, e
aproximou a embalagem do fogo até que queimasse, pegou um charuto que havia
preparado antes do episódio da carta e acendeu naquela chama, posteriormente
jogando o envelope com descaso na pia cheia de copos de conhaque, de caixas de
comida chinesa e água até o topo.
Dirigiu-se
a poltrona reclinável no lado esquerdo da sala, repousou seus cabelos cor de
caramelo e comprimidos até o meio das costas no extremo do estofado,
recostou-se ao máximo onde seu 1,89 de altura puderam e seus pés de unhas
pintadas de vermelho de dois dias atrás ainda intactos pelo uso frequente de
chinelos de dedo deduzia harmonia ao seu estilo desprovido de preocupação com
as tendências da última moda com seu pijama de dinossauros amassados pelas 12
horas de sono da última quinta.
Livrou-se
das cinzas no cinzeiro que havia na mesa ao lado de onde estava e dali via todo
o apartamento lotado de móveis ainda empacotados da última mudança dos quais
nunca teve interesse em tirar, não gostava de despedidas, mas mantinha-se num
universo onde constantemente vivia a ideia do Adeus e “não ficarei aqui por
muito tempo”.
Ligou
o abajur ao lado do isqueiro e pegou seus óculos que haviam caído no chão ao
lado do móvel, ajeitou-se numa posição mais desconfortável possível que lhe
faria ficar trocando de jeito a cada 2 minutos pela inquietação que também lhe
causará a carta e finalmente começou a ler do que se tratava aquilo tudo.
Roxanne,
Eu não sei como posso
começar a lhe falar sem me sentir ofendido com tudo o que vem acontecendo. Não
era pra ser assim, onde vamos parar assim?
Parece que foi ontem
que nos conhecemos, éramos estranhos um para o outro, eu um rapaz cheio de
energia, disposto e cheio de sonhos de vencer essa cidade que constantemente
cuspia na minha cara, não me deixava vive-la e nunca desistia. Você uma
adorável e bem sucedida mulher de negócios que tocava seu próprio empreendimento,
cercado de homens poderosos e de dinheiro do qual eu jamais sonhei, foi quando
alguém me falou de seu profissionalismo e marcamos um encontro ás escuras. Foi
ótimo, você sorridente falando sobre o futuro, me incentivando a ser um
vencedor, falando um pouco sobre você e sobre como daríamos certo, eu tinha fé.
_Comovente... – balbuciou enquanto dava uma
pausa para bater as cinzas que agora alcançavam a metade do corpo daquele
cubano que deslizava entre os dedos finos em movimentos sensuais que levavam-no
novamente aos seus lábios que sorviam todo tabaco como um beijo sufocante.
Nosso relacionamento
foi ótimo, você me apoiava e me dava tudo o que eu precisava, compartilhei meus
sonhos e minhas esperanças e você me estendia a mão e me falava: “Vamos tentar,
você tem talento”. Alimentou meu ego e minha vaidade, me viu triunfar e
fracassar e continuava ao meu lado, pois sempre fui alguém que cumpria seu
papel. Atualmente nossos almoços e cafés só guardam brigas e angustias, e
muitas vezes fujo de nossos encontros pra pensar sobre tudo o que fiz e manter
na minha mente a boa imagem daquilo tudo que compartilhamos.
Faz dois meses que
não a vejo e não quero que isso termine de uma maneira trágica, quero que saiba
que mesmo depois de tanto tempo aprecio muito sua companhia e não guardo rancor
nenhum e, no mais tardar, terei o dinheiro que lhe devo na próxima terça-feira.
Com meus mais
sinceros sentimentos,
Ass:
Henrique Salazar di
Dubierre.
Seus
olhos relaxaram após a última linha, soltou uma gargalhada dessas de quem não
ri a muitos anos e apoiando-se no chão ainda trêmula pelo riso excessivo e
entre as lágrimas que rolavam cômicas e a falta de ar e de seriedade,
sentenciou:
_Se esse desgraçado usa-se metade do talento
na patifaria e na escrita em algo realmente bom talvez vende-se alguma coisa
que lhe permitisse pagar algo do que me deve – terminou jogando a carta
por cima do sofá ao lado ainda com uma capa de proteção e um lençol para
cobrir.
Caminhou
até o balcão da cozinha, rodopiou com uma alegria daqueles que acertam na loteria
ou o ponto de algum prato e agarrou o celular discando rapidamente alguns
dígitos, esperando pacientemente ser atendida sustentando um riso maquiavélico.
_Bom dia patroa. – disse uma voz grave e
decidida do outro lado da linha
_
Bom dia Leon, estão a postos? – disse com a mesma animação de antes.
_
Quais são as ordens? – riu ainda mais grave.
_
Pegue o pequeno Timmy e vão atrás do “Charlatão
da 12 de abril”- silvou – e tragam-no até aqui, pois quero ter uma
conversinha com ele, quebre alguns dedos se necessário, até mais! – desligando
o telefone.
Apoiada
no balcão em uma posição que fazia menção a uma fera prestes a dar o bote em
sua presa com a cabeça entre os braços repousando o queixo no azulejo branco
disse agora com um olhar penetrante e ácido:
_ Não vai escapar tão fácil meu caro escritor,
vai me pagar nem que tenha que reescrever a bíblia a mão! – e gargalhou
profundamente enchendo o ar envolta de veneno daqueles que cheiram sangue e
moléstia...
Escutando: "Long Slow Goodbye" - Queens of Stone Age

Que malvada Roxanne, rs
ResponderExcluirbeijos e uma ótima semana!
Haha!
ExcluirÓtima semana pra você também!
Que isso Pedro!!! Eu aqui toda comovida com a cartinha, pensando ler meus adoráveis clichês românticos e você me oferece essa surpresa??
ResponderExcluirQue malvada :(
Adolecentro
Nada como surpreender as pessoas! \0/
ExcluirHaha! =D