Estava calor naquele dia, o céu rasgava-se em rios
de cores, em tons de vermelho, laranja, rosa e finalmente o azul do céu de
fevereiro, nessa ordem, os sorrisos do verão ainda eram quentes, mas nos olhos
do rapaz, estavam mortos e o sorriso seco, tudo era preto e branco, achava
muito bonito o contraste mais a ausência de cor era a falta de vivacidade e o
frio lhe corria pela espinha, mesmo aos 27 º graus que naquela manhã fazia.
Seu andar era uma marcha, um funeral sem padrinhos,
sua coroa de flores eram as que se viam pelas janelas em vasos artificiais,
tanto quanto seu bom dia, que há muito tempo tirou a expressão gélida de
estranhos que sempre achava pelo caminho... Agora gélidas eram as alças de seu
terno emadeirado que ninguém segurava, carregava sozinho, com o peito carregado
de lágrimas, os olhos enxutos de mágoa e a respiração pesada alimentava a
figura cadavérica que o segurava pelas correntes rezando sua maldição e seus
pecados pelo caminho até o trabalho, onde horas de desespero o esperava...
Ao chegar, não fez nada de diferente, fez tudo o
que costumava realizar na sua rotina, sentou em algum lugar, pois ninguém ali
lugar tinha, olhou rodar do ponteiro e a vida rodar ligeira a sua vista...
Seu velho patrão perguntava de uma pessoa que ele
não sabia como estava e envolto numa espiral de vergonha, raiva e fome
respondeu do jeito que podia, retirou-se da sala e no banheiro lavou do rosto
todas as lágrimas invisíveis que tingiam a pele de vermelho e que ao tocar o
chão faziam brotar todas as rosas e todos seus espinhos que ele passava ao
voltar, rasgando suas roupas, pele, sentidos, menos o silêncio de sua alma e a
hora que não passava, não tinha vontade de ligar, só queria se perdoar por ser
tão egoísta e ser perdoado por ser tão humano...
_Deus prometo te visitar assim que possível, eu não
pretendo morrer ainda, mesmo que essa dor que sinto agora seja pior, talvez em
minha ignorância, uma das piores do mundo...
Assim como um bom funcionário, passou longas 8
horas acompanhado da mais torturante companhia: sua consciência e aquele
celular que não mais tocava, seu pior pesadelo, criaram forma e tornou-se
situação, realidade, dor e despedida...
Voltou pra casa e a água pelo rosto lhe escorria,
como se batesse na carne escorria-lhe a sujeira, mas não alcançava seu
espírito, ele não estava mais lá, ele só era sobrevivência, ele não queria mais
estar ali, e a água quente escorria, o perfume de gritante agonia evaporava de
se corpo. Vestiu-se. Alimentou-se. Calçou-se. Assistiu a uma aula de Cálculo.
Nada além existia. No intervalo saiu andar, não conseguia ficar, seu demônio
consumia pele, paz, ar, vida, lucidez, era um alto preço a pagar pela própria
estupidez de viver sem querer sacrificar nada pra ser feliz, era sua filosofia,
mas não sua prática.
Ele gritou uma vez na rua, alguém ouviu, e chorou,
era ele mesmo que observava longe dali, onde escolheu vigiar sua caminhada
vazia...
De repente, como poucas vezes se viu seu corpo
queimava, mas não de vida, era ódio, sabia quem procurava, sabia o que queria
dizer, sabia que ia explodir, possivelmente ia morrer, mas acima de tudo,
precisava que a mesma pessoa, a mesma a quem estendeu-lhe a mão e o guiou para
um caminho que completamente desconhecia soubesse de sua dor e curasse seu
sofrimento.
Egoísta, furioso e mais confuso do que nunca, partiu em busca de
vingança, choro, talvez quem sabe um ombro amigo, talvez, simplesmente,
redenção...