segunda-feira, 8 de abril de 2013

Está vindo...preciso pensar...



Acabará o livro, que final! Algumas palavras ditas pela personagem ecoavam pela minha cabeça tentando encaixar com algumas coisas que me aconteceram nos últimos tempos.
Estava meio tarde, quase duas da manhã pra ser mais exato, o céu nublado tomava uma cor de um escarlate encardido pelas luzes dos postes que mal iluminavam aquele negrume da madruga de segunda, um vento gélido entrava pela janela, mas eu não tinha frio.
Eu não estava bem, admito, meu dia não acabará de forma alguma como eu esperava, por isso já não espero muita coisa pra me surpreender com qualquer coisa fora do comum, só havia aquele quarto vazio, aquele celular que só me mostrava as horas, uma mala sem arrumar, algumas cadernos e folhas rabiscadas com alguns cálculos que não corrigi. 
 _Tenho que ir dormir - Pensei automaticamente, enquanto tentava me livrar das roupas que tinha saído um tempo antes.
Antes de tirar a camiseta olhei para mim, nem o músico, nem a sombra me acompanhavam mais...
 _Vai acontecer de novo... - enquanto encarava a cama sem fazer e o tênis cujo o cadarço já estava previamente passado - Vou dar uma volta! - conclui.
Calcei meus tênis, coloquei meu casaco de couro e apaguei as luzes e sai para fora...
Por Deus, me senti na origem de toda escuridão, mal se via as portas e janelas do pátio que dava acesso da minha porta, não havia lua e estrelas a vista naquela noite, só as nuvens acinzentadas, provavelmente aconchegavam-se acima delas confortavelmente aproveitando que não tinham de trabalhar. Envolto em naquela atmosfera conhecida e totalmente oculta nas trevas senti um arrepio subir a espinha por um segundo.
 _ Demais!  - Pensei, numa mistura de excitação e impressão que algo emergiria das sombras em uma batalha de vida ou morte, só pra variar um pouco a rotina.
Desci as escadas que me fizeram lembrar de um comentário sobre a mente de um personagem de alguma série ou filme que não lembrava direito... Olhei no celular novamente, só horas... suspirei e pus-me porta a fora, a madrugada me cumprimentava doce e misteriosa com seu silencio adocicadamente convidativo.
Fechando a porta, a luz do poste a frente se apagou.
 _Acho que eu tinha que sair mesmo! - Isso acontece as vezes comigo, nunca entendi o significado, mas acho que é como um check point, logo, acho que eu deveria ter saído naquela momento mesmo, ou só uma dessas coincidências que vivem acontecendo comigo.
Pensei nos fatos que tinham acontecido previamente naquela noite, o saboroso gosto de meu nada saudável jantar, as pessoas, as conversas, os encontros e desencontros,  e depois de analisar botei tudo no quadro geral da situação, aquilo parecia uma pitoresca obra rupestre, organizei de novo os dados colocando-os em ordem cronológica, agora tinha uma pintura surrealista.
 _Não, ainda não - pensei comigo, resolvi virar o quadro de cabeça pra baixo e alterar meu ângulo de visão, surpreendentemente aquilo se tornará um rosto, familiar por sinal, fiz algumas contas e fitei como um crítico de arte - Acho que agora faz sentido, mas estaria reprovado se fosse uma obra naturalista, porém ao passo que o visse como um quadro impressionista seria exatamente o que vejo agora! - Sorri satisfeito com a crítica e continuei minha caminhada.
As ruas quase desertas e calmas me davam uma impressão familiar, como todas as vezes que fazia aquilo meus pensamentos ecoavam por todo o lugar: Prédio, casa, carro, e voltavam a minha cabeça como ondas bagunçando o que já estava arrumado como pedras que são jogadas umas perto das outras alterando os movimentos que provocavam sob a água. 
Encontrei alguns desconhecidos conversando sobre algo muito engraçado que não consegui distinguir, satisfiz-me apenas cumprimentando-os e continuando minha caminhada, que já tinha destino: Meu reino, aquele que vi pela janela do apartamento enquanto calçava meus sapatos.
Desci a rua de um estabelecimento onde alguns boêmios ainda residiam em festa e as gritarias:
 _ Parece bem divertido lá dentro - lembrando que já haviam me convidado para sair e aproveitar meu salário de trabalhador honesto, mas por motivos, que não me lembro agora, recusei. - Talvez um dia apareça por ai para tomar alguma coisa... - disse pensando melhor, o lugar nem era tão atrativo assim.
A rua a qual atravessava agora era mal-iluminada pelo lado esquerdo, o que era bom, pois não havia iluminação nenhuma do lado direito, apenas um longo pedaço de terra coberto com um gramado alto e expeço da onde tive impressão ver mexer algumas vezes e tive vontade de mergulhar lá para ver o que havia lá.
Descia aquele trecho toda e cheguei num bairro onde as casas muito bem projetadas e terminadas me lembravam um lugar muito abastado, onde a pobreza passava as vezes para se sentir um pouco mais miserável e talvez pedir um pouco de misericórdia e pedaços de alguma coisa pra comer ou pra usar.
 _Pobre pobreza pobre - constatei - Se me encontra-se na rua agora, talvez lhe fizesse companhia e te chamaria pra comer algo, mas como você, não sou daqui, porém posso lhe ajudar por um momento se desejar. - terminei o pensamento enquanto virava a rua de uma casinha azul que parecia ter sido tirada de uma chácara da região enquanto aos latidos um grupo de cachorros acusavam minha presença ora aprisionados nos quintais, ora nas ruas tentando me fazer voltar de "onde diabos eu vinha, a rua é nossa!" é o que pensei que diziam.
Finalmente sob a orquestra de uivos e latidos entrei em meus domínios que consistia em uma mesa de pedra e quatro bancos do mesmo material que serviam para receber meus convidados: os três reis dos domínios que rodeavam aquele lugar.
Servi-me um copo de chá com biscoitos enquanto sentei e observei as longínquas terras daqueles soberanos inundadas por fauna noturna e a flora que crescia livre, leve e desorganizada.
 - Tão poderosos, mas nenhum jardineiro chamam pra cuidar - pensei cuidadosamente no caso e conclui - Talvez seja mais divertido assim! - sorri amarelo e continuei sentado a observar.
Olhei mais uma vez aquele quadro desenhado sobre todas as palavras e pensamentos, coloquei-o pra lá e pra cá sobre a mesa e o ar, falei mais algumas coisas pro vento carregar e guardei-o novamente.
Olhei no celular, ainda só me mostrava as horas, desliguei-o, testando antes se despertaria caso o deixasse desligado durante o dia todo.
Olhei para o céu, ainda nublado, olhei ao redor, vazio.
Tirei meus óculos e olhei para o céu, ele estava limpo agora e estrelas despontavam por toda parte. Sorri sem graça, só de felicidade e coloquei-me a andar sobre aquelas ruas onde árvores cresciam majestosamente sombrias sobre a rua quase formando um túnel enquanto os cães andavam aos seus remotos cantos sem ligarem, agora, para minha presença.
Cheguei na esquina que deveria subir, mas ao olhar pra baixo vi uma tentadora ruela que desaparecia ao horizonte com luzes azuis de postes mais novos, como a entrada de alguma festa de gala. Muito convidativa ela me seduzia com seus feixes de luz que repousavam sob os carros e casas daquela primeira rua, não resisti e desci por ali para ver o lugar.
Não demorou muito minha aventura por aquele lugar, na primeira rua encontrei-e num lugar que remontava as ruas de uma cidade de porte médio que morei no passado alguns vultos me lembravam as pessoas dessa época, a segunda se parecia muito com a rua da casa de meus pais, mal-iluminada da mesma maneira inclusive, a terceira era de pedra solta como minha primeira casa, estranha coincidência, estava mergulhando nas memórias quando uma quantidade imensa de cachorros emergiram de todas as partes e num coro de protesto como em uma velha rua de Madrid me expulsavam daquele lugar que continuava a uma pedaço de estrada onde não se via nada. Talvez ali fosse o fim, talvez eles tivessem me salvado de algo que não compreendia.
Os cachorros vinham em cima de mim aos montes, sem compreender muito bem por que não tinha medo minha respiração ficou mais pesada que o próprio ar e uma vontade esmagadora jazia em meus olhos que cada vez que fitavam os rostos daqueles animais faziam-os recuar ainda sob seus dentes a mostra e seu rosnados profundos e raivosos.
Chegando em casa tratei de arrumar as roupas no guarda-roupas, fui ao banheiro e lavei-me, arrumei a cama com lençol, o travesseiro com uma fronha nova e as cobertas sob tudo isso, tudo muito perfumado, previamente lavado por minha mãe. Por fim, deite-me no colchão velho e fedido, na opinião de minha mãe, e lá permaneci até o sono me beijar a boca e me abraçar até amanhecer.
Foi o que aconteceu, se é só isso, não posso te afirmar. 


O Celular ainda só marcava as horas...
Escutando: Call it Fate, Call it Karma - The Strokes

3 comentários:

  1. Que saudades do Zafón e que vontade de lê-lo todo de uma vez... E viver como uma de suas personagens!

    *operadora contribuindo sempre ;)

    Caramelo de Limão

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    1. Acho que posso lhe ajudar com essa questão do Livro! Haha!

      *no caso da operadora, só um milagreiro ajudaria C;

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    2. Acho que a Física quer que eu dê atenção só a ela, no momento :x

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