quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Do que aconteceu a tempos atrás... (Parte 1/3)




Abriu os olhos e tingiu o universo com três tons do mais profundo silêncio, um negror que cheirava lágrimas que caem do lado de dentro, levantou-se e tomou um copo inteiro de ar e olhou a marca do que antes lá havia e agora o agoniava pelo corpo todo.
A cama já estava fria, antes mesmo de levantar, seu corpo já não esquentava aquela cama vazia, não havia calor em suas mãos ou em suas palavras, depois do acontecido e das uma ou duas horas de sono conturbado ouvia seu corpo cansado de olhar aquele objeto que não tinha mais nenhum significado, mas que ainda brilhava uma vida, que decidiu deixar para trás.
Andava inquieto e fitava o infinito de possibilidades que o universo o permitia, ele olhava para fora, através de sua janela que tinha grades, a luz do sol, que se jogava lá de cima, do desconhecido espaço entre a estrela e o pequeno apartamento, não conseguia ultrapassar em parte aquelas barras de ferro frias...
A luz era corpo que só conseguia colocar seus braços e pernas para dentro daquele pequeno quarto, acariciava sua pele, mas não envolvia-o num abraço ou o beijava os lábios estava presa do lado de fora da pessoa dele, ela não era mais parte do seu ser...
Teimosia em socos certeiros e raiva despontando em pontapés derrubavam tudo aquilo que tinham construído durante todo esse tempo, corroídos os destroços pelo veneno da desconfiança eram varridos para baixo do tapete vermelho pela indiferença, onde todas as lembranças importantes, ou todas elas, desfilavam para todo canto e o encanto de cada memória agora lhe passava por todos os dois olhos marejados em rios de saudade que nasciam da culpa de machucar alguém e desembocavam no chão que não limpava desde a semana passada... restos de saudade e de doritos ao chão...
Aquietou-se e ajoelhou, em seus próprios cacos e rezou, como sempre, pelas mesmas pessoas, todas elas, e pelos mesmo motivos, todas elas, e depois disso entrou dentro daquela casca vazia que um dia foi seu corpo e afundou em sua alma atormentada.
Dentro de si havia aquele salão vazio, onde várias pessoas, todas elas ele, de diferentes épocas e situações sentavam para discutir a atual situação e lembra-lo de tudo o que foi feito, "Human After All" elas diziam sempre ao final. Elas haviam ido embora, deixando a távola, as cadeiras e o salão infinitamente branco vazios, ele abandonou a si e nem percebeu. Ao voltar os olhos para a porta na direção oposto viu erguer-se da sombra da própria manifestação corpórea, um espectro, um monstruoso ser que já não possuía carnes, nem coração conectava-se com ele através de correntes e cada vez que respirava, de forma ofegante, triste e pesada, roubava alguns dias de vida e o seguia como se fosse uma alma amaldiçoada esperando, talvez a morte para que possa consumir desde os ossos e o que restava de bom em si.
Voltou de dentro para fora, naquele lugar que havia repousado o corpo e acima da cabeça a realidade daquele ser continuava lá, a consumi-lo aos poucos com um ensurdecedor grito de ódio e agonia a cada bocada. Tragou mais um gole de ar, o monstro um gole dele, o objeto um gole a mais de atenção e a situação alimentava-se entorno daquele que brilhava na mesa, mas que já deixara os brilhos dos olhos do rapaz.
Alguns minutos depois dessa jornada suas carnes exalavam um fétido sussurro gelado que clamava por ajuda e alguém pra conversar. Correu para janela e apoiado nela falou em voz baixa com alguém que pra ele é, e continua sendo , um anjo com traços de índia, que cruzou em seu caminho a alguns anos atrás, e mesmo tão longe ela aquecia seu coração com suas palavras verdadeiras, fazendo retornar as cores dos meus melhores dias e fazia uma promessa de ajuda pra quem já não esperava uma solução, além de receber um perdão, tudo isso por apenas alguns centavos pela ligação.
Perdido na complexidade daquilo que não controlava, seu sentir e imerso na responsabilidade de existir, e trabalhar pra garantir que isso continuasse, vestiu uma boa roupa de rosto, daquelas que vestem como luva um sorriso forçado de comercial de pasta de dente, colocou um par de tênis e seguiu para um de seus mais longos dias...  


Parte 2                                                                      Parte3 

10 comentários:

  1. Pesado. Triste. Pude sentir lá no fundo cada palavra.

    Caramelo de Limão

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    1. Então acho que consegui transmitir tudo o que essas palavras significaram um dia...

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  2. É incrível sua genialidade. O turbilhão e a maneira de colocar as palavras e orações. A capacidade de prender a atenção do leitor, que sequer tem coragem de respirar, com medo que isso atrapalhe a concentração e abstração que a leitura do texto exige e provoca. Talento puro garoto! Prossiga e explore cada vez mais essa capacidade absurda de criar.

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    1. #sqn

      Obrigado Danilo, acho que foi a própria lembrança e o sentimento libertado que escreveram esse texto, eu só fui aquele que transcreveu as palavras e as lágrimas para o computador! =)
      Muito obrigado e continuarei a me dedicar a escrita, quem sabe um dia eu seja autor de um livro como você! *-------*

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  3. Triste, intenso... Maravilhoso...
    Poxa, fiquei sem palavras...

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    1. Obrigado pela vista Suzana! =)

      Talvez seja assim porque as vezes a verdade é triste demais e as palavras são tão reais quanto a dor do passado...

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  4. Autor você já é rapaz, só falta publicar, o que é muito simples da maneira que eu fiz, qualquer um publica ou publicaria. Não é mérito algum o meu, pagar para ser publicado, apenas para ter em mãos os escritos em forma de livro. Mas é bem difícil publicar de outra forma em nosso país, a não ser em antologias que de uma forma ou outra também se acaba pagando para ser publicado. O mercado editorial é bem restrito e cauteloso, ocupa-se dos nomes já consagrados que podem dar um retorno financeiro certo. Mande seus escritos para uma editora, acredito que no seu caso, possivelmente as portas se abririam porque seu talento é fora do comum. Se quiser fazer como eu fiz te mando os links e tal até para ter um livro já impresso para apresentar. Por ora tem o blog que é uma alternativa a nós desconhecidos apreciadores da escrita. Flw!

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    1. Obrigado pelas dicas Danilo! *-*
      Acho que posso tentar alguma coisa nessa linha, mas por enquanto ficarei no blog que mal tenho tempo de atualizar graças as várias obrigações que tenho! E pare de me estragar com elogios! a estrela aqui é você! =D

      Abraços

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