Fazia frio, mesmo para as noites
quentes de abril, e não chovia do lado de fora. Meu olhar se perdia bem onde o
limite de minha cegueira noturna distinguia o contorno da coberta que cobria o
seu sorriso e seu corpo. Poucos segundos atrás tive a imensa incerteza do que
queria te dizer mesmo sabendo que tudo andava tão fora do comum que eu até
já não dormia sozinho e também não atendia tanto o celular. Seu olhar sonolento
naquela hora da madrugada então só me fazia ter mais vontade de arriscar algo
do que prolongar minhas angústias de uma pergunta que te fez ficar mais confusa
ainda do que eu, provável, mas devo te dizer que foi um dos meus maiores
momentos de coragem, devido as circunstâncias, nem posso considerar quando fui
conhecer seus pais em cima da hora, tive muito mais medo de te falar naquele
instante do que falar sobre futebol com quem eu beijo a filha. Foi profundo,
rápido, tipo um raio, a primeira reação é um choque, olhar estático e a luz do
olhar que encara, depois a dor no peito, os dentes serram e o coração bate com
o ensurdecedor som da pergunta, em seguida o medo das consequências do golpe,
de responder e sobreviver a tudo sem certeza nenhuma, nesse caso com "eu
quero", fui eu quem morri, de gosto, e naquela hora só queria te amar, e
me importar com mais porcaria nenhuma.
Talvez agora entenda a falta de brilho no meu olhar, de luz, de
choque, e de som naquele dia quando tive que me importar com todas as coisas e não ter tido
tempo de te amar quase de maneira alguma, só de lembrança e de ir embora sem te ouvir dizer que se lembrava também...

Eu me lembro. (:
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